• O Apocalipse de Merda. Uma conversa com Michael Marder
    Jun 12 2026
    Uma desoladora mistificação do nosso tempo opera-se pelo colapso da responsabilidade, como um processo de recitação em que o ser se expurgasse daquela impiedade no juízo que faz de si mesmo, deixando de reconhecer como a consciência só alcança um limiar sagrado no momento em que cada um de nós admite que o “sermos responsáveis pelos nossos actos até ao fim dos tempos é o verdadeiro juízo final com que temos de nos confrontar” (Steiner). Suponha-se, então, que nos seria possível construir uma excepção que revertesse aquele sentido de responsabilidade absoluta de que falava Dostoievski em Os Irmãos Karamazov (“Todos somos culpados de tudo, culpados por todos diante de todos, eu mais do que os outros.”), construindo-se um efeito de expiação automática de qualquer pecado, em que a culpa não implica já que nos refaçamos dos nossos erros, mas que estes sejam atribuídos ao regime de dissociação geral em curso. Podemos hoje reconhecer como se tem procedido a uma espécie de morbidez da projecção, em que, por um lado, os homens entram num transe, num confessionalismo constante das suas fraquezas, exprimindo aquele desgosto por si mesmos que parte então em busca de causas mais gerais, por outro, tornando-se especialistas em narrar a sua queda, superam assim qualquer transtorno e retiram até um gozo perverso de se verem a actuar como possuídos, como se o próprio céu não passasse de uma ficção infernal, um modo de antecipar a culpa, justificar-se enquanto se encarna os piores defeitos que se poderia reconhecer de fora, sendo este o supremo gozo estético. Seria uma forma de dispor intimamente dessa intuição que guiou Benjamin ao reconhecer como a humanidade, que antigamente, com Homero, foi objecto de contemplação para os deuses olímpicos, veio a tornar-se objecto de contemplação para si própria, e até de forma cada vez mais obsessiva. Ele notava que a alienação de si própria atingiu tal grau que lhe permite viver a sua própria aniquilação como um prazer estético de primeira ordem. De algum modo isto explica como cada um tomou a seu cargo esse movimento de queda para lá de qualquer possibilidade de redenção, em que os seres se deliciam com a possibilidade de enfrentar o juízo final com uma insolência desmedida, com tal desdém pela realidade, que os seus gestos estariam consagrados à produção e reprodução da destruição do mundo, apreciando essa simetria entre a sua devastação íntima e a degradação sucessiva dos planos exteriores, como se o Antropoceno fosse uma projecção de ordem quase libidinal, uma forma de reclamar, pela posse violenta, toda a vida e todo o espaço, revirá-los, cometer contra eles o acto mais infame, realizando assim as nossas fantasias despóticas. E isto porque chegamos a um tal estado de amputação sensível que não conseguimos retirar verdadeiro gozo de uma relação de proximidade e de dependência dos elementos, de tudo aquilo que revelava a nossa fragilidade intrínseca, essa ânsia de ligação. “Compreendo que Nietzsche tenha perdido os sentidos ao ver espancar um cavalo”, diz Steiner. “Trazemos a condenação dentro de nós. Caso contrário, porque teríamos destruído o planeta?” Talvez tenhamos encontrado um meio de vingar-nos da morte, sendo certo que todo o anseio e o terror que esta nos provoca é o resultado de vidas que não sabem cumprir-se. Assim, produz-se esse golpe desesperado que faz do mundo um imenso cadáver de modo a ser-nos mais fácil passar por cima dele, fazer da nossa morte um triunfo. Conseguimos reconhecer esta forma de buscar a própria catarse no lixo, a forma depravada de encontrar esse corpo que corresponde inteiramente aos nossos excessos, à dedicação de todas essas descargas ofensivas, não sendo já possível a ninguém escapar a esta encarnação doentia. Os nossos actos ganhariam assim esse prestígio do horror, como se participassem de uma profecia obscena, traduzindo esse horizonte cor de carne, como as costas de um moribundo… “Demos graças pela nossa violência, disse ele, mesmo que ela seja estéril/ como um fantasma, embora não nos leve a lado nenhum,/ porque estes caminhos não levam a lugar” (Bolaño). O lixo torna-se a condição necessário de toda a lógica de acumulação, e acaba por representar a verdadeira herança e o próprio destino que melhor exprime os anseios de um ser que adoptou nas suas rotinas um princípio de indiferença face aos efeitos que produz, sentindo-se desalojado da própria mente, desalojado daquele sonho que antes nos aproximava, sendo que agora todos os sonhos implicam a degradação dos outros, e até quando tenta transmitir aquilo que deseja, só é capaz de produzir um discurso em que todas as palavras se tornam medonhas. “E viajava de um lugar a outro/ dos sonhos/ qual verme da terra/ arrastando o seu desespero/ comendo-o”… Ninguém estranha assim toda esta raiva, e alguns põem-se a fantasiar com um ...
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    4 hrs and 18 mins
  • Um acepipe nas barricadas. Outra conversa com David Teles Pereira
    Jun 6 2026
    Se as perdêssemos de vista por umas horas, não saberíamos reencontrar as nossas vidas pelo cheiro, nem pelo gemido que fazem, nem daríamos com esses corpos tão abatidos que só de um certo ângulo, a poucos palmos do espelho, nos parece que sim, serão os nossos, porque repetem vagamente os mesmos gestos ou expressões. Mas mesmo nisso parece instalar-se um certo desfasamento, algum atraso, e são poucos aqueles que nalgum dos seus rastros se mostram firmemente fiéis à sua juventude. Reserva-se esse elogio hoje a tão poucos: “Pouco antes de morrer, o que ele escrevia, o modo como continuava a viver, conservavam a virulência, a agressividade e a independência dos seus 25 anos.” Em certa medida a poesia era uma resistência da juventude pela vida fora, o doloroso alarme mantido na relação com o mundo, a impossibilidade de se saciar com aquele pão com que os demais empurram seja o que for. Chega uma altura em que o abandono parece a nossa melhor arma. Quem ama não faz contas, mas hoje tudo se guia por esses sinais: soma: multiplicação… “O mundo moderno”, escrevia Péguy, “não é universalmente prostituível por luxúria. É totalmente incapaz disso. Ele é universalmente prostituível porque é universalmente intercambiável”. Queremos dizer-nos alguma coisa, mas até as nossas palavras parece que tilintam mais do que soam, estão cheias da frieza do cálculo, não passam de fracções. Ora, o dinheiro não exprime outra coisa senão a desolação do infinitamente reconvertível. Assim, cada palavra vale tanto ou tão pouco como outra qualquer. “Quando o dinheiro vale alguma coisa, a palavra não vale nada. Quando a palavra vale, o dinheiro não vale nada” (comité invisível). Por estes dias, olhando à volta, até isso a que chamam luta já pouco se distingue do conformismo, da resignação. “Quando a História for escrita como deve ser, os homens ficarão admirados do comedimento e da grande paciência das massas e não da sua ferocidade”, assevera o autor de Os Jacobinos Negros. Chega-se a uma altura em que se percebe que o tempo está decididamente contra nós, mas em vez de isso reverter a favor dessa doença mortal, dessa razão desesperada, todos ainda aguardam que a sua situação se resolva. E vamos sair mais algumas vezes e reivindicar esses salários de fome, gratos pela nossa miséria, dando por nós tão longe de qualquer ambição existencial, a qual teria de passar por “repelir para o mais longe possível as relações hostis urdidas na esfera do dinheiro, da contabilidade, da medida, da avaliação”. Os do comité invisível adiantam que, por esta altura, a economia já não é somente aquilo de que devemos sair para deixarmos de ser esfomeados, mas é aquilo de que é necessário sair para viver, para simplesmente estar presente no mundo. O mais grave, assim, é que a cada dia que passa se colhem cada vez mais provas da impossibilidade de dois ou mais se encontrarem num lugar e num tempo, pois mesmo os nossos ímpetos aventurosos estão distribuídos por frequências de onda que só por um acaso milagroso se combinam e enredam. “Após uma ausência de que ninguém teve a culpa/ ficamos acanhados um ao pé do outro/ e as nossas palavras parecem mais recentes do que nós,/ como se tivéssemos de voltar ao momento em que nos conhecemos/ e recuperar-nos até ao presente”, lê-se nuns versos de Linda Pastan, num poema em que ela reconhece como o maior perigo que enfrentam os amantes é “toda essa ressaca/ da vida quotidiana, oculta mas perigosa,/ que tão depressa nos puxa a ambos para o fundo”. De resto, quem ainda se sujeita aos destratos de andar sem rumo, aprender com dificuldade os idiomas do acaso pela hipótese de provar o néctar da beira da estrada, dos fins de mundo, dessas zonas limite? “A economia, é este o seu princípio, faz-nos correr como ratos, para que não estejamos nunca lá, a descobrir o segredo da sua usurpação: a presença./ Sair da economia é fazer emergir o plano da realidade que ela esconde. A troca mercantil e tudo o que ela comporta de dura negociação, de desconfiança, de engano”… Aquele brilhante judeu que se matou por receio de ser entregue à Gestapo, quando tentava escapar pelos Pirenéus, notou que articular o passado historicamente não significa conhecê-lo “como ele de facto foi”, mas apoderar-se de uma recordação, tal como ela relampeja no instante de perigo. O pior do nosso tempo é que os perigos se multiplicam, e se tantos fazem questão de os registar, diagnosticar, se passamos boa parte do nosso tempo comovidos com a nossa infindável capacidade de sofrermos com as dores mais distantes, depois ninguém faz nada em relação àquilo que está mais próximo. Falta aquela capacidade própria dos poetas que, no entender de Cortázar, se reconheciam menos pelo que os trancava em si mesmos e mais naquilo que lhes era próximo, que os fazia sentir implicados no que tinham ao seu redor. ...
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    4 hrs and 37 mins
  • A Balsa da Medusa. Uma conversa com Margarida Davim
    May 29 2026
    Tudo o que disser aqui pode ser usado contra si. E não é assim, e cada vez mais, em toda a parte? Parece que temos alguma coisa contra a vida. Por princípio, e contrariamente ao que se diz. Só isso explica a falta de ar, a falta de vidas absurdas. No seu estado de demência mais benigna, percebe-se como o mundo cedeu a uma imensa nostalgia do passado. Ninguém saberia, contudo, situá-lo. Na verdade, são doenças da nossa falta de memória. Os delírios de uns débeis. Mas vez por outra lá se cruza connosco um desses seres descarrilados, vendendo beijos com sabor a cerveja, contrariando a ideia de que tudo só se passa muito longe, no cu do mundo. Ainda antes de isso ser tido como um acto político, era vista com o batom a transbordar sempre um pouco dos lábios. O desastre torna-se sugestivo a partir de certa altura, e há quem se apegue a ele, desenvolva por esses sinais uma estima imensa. A realidade, no fundo, interessa-nos muito pouco. Só a partir do momento em que alguém se dispõe a recuperar velhas cassetes, as gravações soluçantes, ficando buracos que é preciso compensar. Uma canção que toca ao longe e que quase se deixa reconhecer, e também a partir de frases cortadas uma linguagem que nos parece desconhecida, feita de réplicas oferecidas em lugares esquecidos. É preferível quando alguém só conhece uma versão parcial, e faz dela o seu todo. Não se põe a investigar todas as circunstâncias, porque a partir de certa altura a enxurrada dos acontecimentos devasta qualquer possibilidade de segurar uma narrativa mais firme. «Não ser amada é um acto de terror», disse ela. Só ter para mostrar a quem a visita naquele quartinho infecto «um coração cheio de moscas negras». E, nas paredes, balouçando, «um alfabeto de más experiências.» É o de sempre: histórias gaguejantes, overdoses, comprimidos para dormir, os bibelôs para compor uma solidão de deserto, e a clara sensação de que tudo caminha para o seu fim. São as impressões o que respira no meio dos relatos. Todos sabemos secretamente que as histórias estão mortas há muito. Hoje, só nos sonhos não nos sentimos ali despejados, desfeitos. Só nos sonhos, as impossibilidades não se apresentam como impossibilidades. Michael Marder diz-nos que após a segunda morte de Deus, convencionalmente chamada secularização, o vazadouro global incita à expiação do ser através da massa em energia, potencialidade pura, inflamável e explosiva. «A existência é tolerada desde que nada permaneça quieto, os seres não se detenham no interior dos seus limites próprios e o próprio ser acelere a caminho do nada.» Por isso prefiro ler como quem tem a sensação de ouvir alguém perdido num transe, como Sara Stridsberg a recolher os sinais da passagem de Valerie Solanas por este mundo. Falar-nos daquele quarto do Hotel Bristol, em abril de 1988, daquela cama que «é um deserto em chamas de tudo o que não fizeste e de tudo o que fizeste mal, profunda como dez mil braças de água de oceanos de tudo o que esqueceste e de todas as vezes que te esqueceste de dizer adeus.» Morreu ali, aos 52 anos, como uma personagem de quem se dizia que não tinha os parafusos todos. Mais um nome a juntar a uma lista, que poderia seguir assim: Valerie. Marilyn. Roslyn. Ulrike. Sylvia. Há tantos narradores empenhados em chegar ao fundo da verdade, apenas para descobrirem que à medida que se aproximam as frases se tornam vazias, tomadas de uma irresolução, de uma fundamental inépcia retórica. Por isso, as histórias são só uma força de atiçar, manter a tensão, para levar as pessoas a confiarem naquilo que já viveram e sabem. Assim sendo, que importa que o narrador exagere ou minta? Que importa saber quem é o narrador? Cada um está entregue ao que viveu já e a partir disso está disposto a imaginar. «A tua memória é um passador», diz uma delas. Todos se esfalfam por abordar um material genuíno, mas acaba por valer mais essa voz capaz de demorar-se até ficar com os pensamentos encardidos, a roupa suja, revelar as suas sujas intenções, a sua baixeza. No fundo, para que alguma coisa sobreviva a este mundo precisa ser arrancada às suas circunstâncias, aquilo que fica na memória dos que registam apenas os contornos mais frios, essa cultura geral da indiferença. Solanas ficou conhecida apenas como mais outra histérica, a feminista radical que, nos anos sessenta, disparou três tiros sobre Andy Warhol, depois de ter participado num dos seus filmes. Os dois primeiros tiros falharam o alvo, mas o terceiro perfurou-lhe o esófago, o estômago, o baço, o fígado e os pulmões. Um ano após o atentado, que a levou a ser internada com um diagnóstico de esquizofrenia, Warhol posou para uma fotografia com a camisa arregaçada, exibindo as marcas das cirurgias. Aquelas cicatrizes deram-lhe a gravidade que lhe permitiam afastar-se da figura de um patético cadáver disponível a tudo para somar mais uns minutos. Havia ali ...
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    4 hrs and 18 mins
  • Malcriados, malnascidos, estrangeiros e apátridas. Uma conversa com Diogo Nóbrega
    May 22 2026
    “Também Diane Arbus nos deu, na sua fotografia,/ da loucura não o refúgio (o asilo) mas a corrida/ (atrevida) – ou o passo de dança (Disse, Dança?)./ ‘Pass through the fire to the light’, de novo L. Reed.” Isto é uma costela dessas que arrancamos para palitar a boca que gostaríamos de refazer a cada par de meses, dominados por um assombro que nos leve a um tal grau de estranheza que não tenhamos notícias nenhumas de quem costumávamos ser. Lemos a poesia para cair longe, para desaparecermos, sermos desses que se dão como perdidos. E a tal costela, neste caso, arrancada de um poema de Fernando Guerreiro, segue-se a um desses começos tão auspiciosos por estarem lançados no meio da maior confusão, nessa sua alteração interminável do estilo, uma alegria de ter por objecto o acidente, de viver variado, ir sabendo de si como de algo extraviado, assim, um ser disponível ao trespasse, fantasma de outros, fora dos eixos da sua biografia, abrindo-se a uma temporalidade mais vasta, inquietante… E o tal poema, esse belo estafermo, arranca assim: “Nada de obras completas – apenas champanhe, na primavera e um romance./ Por vezes esquecemo-nos de como morrer é simples –/ de sopro, no coração ou mesmo de cancro./ Num poema de Lou Reed todas as arritmias do espírito/ seriam resolvidas no aneurisma fluido do ritmo.” E aqui vemos Kafka passar ao fundo, aditando uma brevíssima explicação dos seus modos tão esquivos: “Evito as pessoas não porque quero viver sossegadamente, mas sim porque quero morrer sossegadamente.” É um abandono próprio de quem nunca, na verdade, teve qualquer margem de recuo na existência, e entendeu que pelo menos tinha direito a uma morte que não desse espectáculo, que não viesse a servir de gala a larvas e moscas. Afinal, o abandono é a morada que resta àqueles que nunca conheceram neste mundo uma condição propriamente doméstica. Cícero recordava aqui há um bocado um belo dito de Anaxágoras… “este filósofo agonizava em Lâmpsaco e os seus amigos perguntaram-lhe se ele queria, caso acontecesse uma desgraça, que o transportassem para Clazómenas, a sua pátria: ‘É absolutamente inútil’, disse Anaxágoras, ‘de onde quer que se parta para os Infernos, o caminho é o mesmo.’ Mas voltemos à fotografia de Diane Arbus e ao poema de Guerreiro: “talvez seja isso a loucura/ um Haloween dos subúrbios – uma ronda dos espíritos/ em que cada um entra, antes de regressar ao seu túmulo,/ para ensaiar (invertido no seu negativo) uma contra-dança./ Todos juntos, a máscara é ao mesmo tempo o que une e distingue – a bata: o impulso da forma, por onde a carne s’adelgaça – e o corpo, avança.” De algum modo esta é uma sensação comum, a de que este tempo como está só nos oferece um adeus intencionalmente arrastado em duração, a urgência de fazer um tempo contra o mundo, cada um arrastando as correntes para se manter acordado, deixando um rasto húmido e negro, como lesma ulcerosa e maldita. E assim acaba o mundo, não como uma coisa realmente tenebrosa, mas como algo que se faz esperar, ao ponto de alguns se queixarem de até nessa última hora estarmos sujeitos aos atrasos, a ficar na fila que não avança. “Mas esta porra não anda?”, resmunga alguém. Llansol diz que teve conhecimento não sabe onde de rituais primitivos de enterro em que se esvaziava a cavidade ventral de todas as vísceras do morto e aí se depositavam bilhetes com votos escritos… Talvez um ritual desses pudesse devolver algum impulso ao que se escreve, e, por mais que frágeis, nesse bafio doce daquilo que se usa para rechear o morto, talvez isso despertasse uma outra urgência dos vivos para com a vida. Seria um esforço a favor de uma persistência menos ordinária, e isto num momento em que aquilo a que por estes dias se usa tomar como uma atitude culta não é mais que uma disposição para sacralizar disparates, para se entregar a esses tributos que a estupidez presta ao orgulho. Os autores morrem cheios de tesão. Alguém os convenceu de que algo subsistirá dos seus espíritos, e andam por aí convencidos de que essa vergonha de serem inteiramente devassados pela fome da terra, não só pelos nossos corpos, mas por todos os sinais da nossa existência, a eles não poderá roer tudo, uma vez que lhe vão impondo um certo limite. Leram em Steiner que leu em Baruck de Mezbizh… “Quando uma palavra é pronunciada em nome do seu autor, os lábios deste movem-se dentro do túmulo. E os lábios de quem profere a palavra movem-se do mesmo modo que os do Mestre já morto.” É fácil detectar essa gravidade dos que falam com a confiança de que alguém fará deles mestres num porvir de dar à corda, mas a subtileza dos espíritos, toda essa delicadeza dos que desejam repetir-se pela eternidade fora, é precisamente aquilo que mais nos cansa, quando começamos a suspeitar que o verdadeiro génio é a coisa menos talentosa que há. Não ...
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    4 hrs and 39 mins
  • Maus fígados, objectivos comuns. Uma conversa com Ricardo Mangerona
    May 15 2026
    Nesta república de sonsos, em breve o ódio terá o melhor de nós, a parcela que, num acesso revoltoso, se esforça ainda por compreender o estado das coisas, e será a última expressão contendo um verdadeiro sinal de fervor, uma paixão indomesticada, e o melhor de um antigo anseio confessional, que, vendo-se livre das peias da civilização, se mostrará tomado por essa virulência de ordem mais ou menos espasmódica, impetuosa, capaz de introduzir algum nível de contraste neste mundo. De resto, à nossa volta tudo é cada vez mais cruel e frio, desapaixonado, incapaz de justificar-se senão com essa lógica desprezível daqueles que parecem dispostos a sacrificar tudo em seu nome, de forma que as existências mais degradantes estão defendidas pelo mais rasteiro dos propósitos, que é o da auto-preservação. De qualquer modo, naquele mundo que hoje temos diante de nós, todo o bem é demasiado relativo, e só no mal se acha ainda algum empenho em direcção ao absoluto. Ansiamos por um tempo que já não nos foi dado viver a não ser por vislumbres, visitações em que certos estados fricativos pareciam apossar-se de nós, e tomávamos o embalo de fúrias que foram sendo vistas sempre como o sinal de que um ser se desatrelou, perdeu o eixo, a noção, danou-se, deu a sua carne e espírito de alimento àquelas regiões mais sórdidas, baixas, infernosas… Por isso se pressente como só em horas perdidas os seres se entregam às explorações dessa dimensão de treva que temos sempre trancada nos fundos. Mas se o ódio às vezes tem em si o melhor de um tipo, e somos levados a livrar-nos desse manancial, a tê-lo como uma substância de que devemos envergonhar-nos, seria bom pensar porque é assim. Num mundo em que de qualquer modo, “cada um, de seu próprio passo, vai para o Diabo à sua maneira” (William Hazlitt), não deixa de ser curioso como ódio se tornou uma reserva íntima, sendo-lhe recusado qualquer papel na vida pública, e o seu efeito no campo político é sempre encarado como algo que os espíritos lúcidos devem contrariar, exorcisar. Como assinala David Graeber, hoje tendemos a assumir que a expressão “política do ódio” possui necessariamente conotações de direita (uma vez que normalmente é aplicada ao racismo, ao ódio étnico ou à homofobia) e, por consequência, que o tabu em torno da expressão do ódio político representa uma vitória de sensibilidades essencialmente de esquerda. Mais à frente, nesse ensaio em que este ensaísta comprometido com o anarquismo nos diz que o ódio foi transformado num tabu político, ele nota como a própria ideia de “crime de ódio” inverte o princípio jurídico tradicional segundo o qual um crime passional deve ser punido menos severamente do que um crime motivado por cálculo frio e interesse pessoal.” Talvez não seja coincidência que a vaga de legislação contra crimes de ódio nos anos 90 tenha sido rapidamente seguida por legislação ‘antiterrorista’, a qual igualmente estipula penas mais pesadas para crimes motivados por paixões políticas (e, dada a forma como as leis costumam ser redigidas, essas paixões podem incluir o mais benevolente idealismo ou amor pela humanidade ou pela natureza) do que para os mesmos crimes cometidos por lucro económico ou interesse privado.” O capitalismo não é senão o triunfo daqueles que dominam uma violência tremenda mas carregada de subterfúgios, de ordem sempre excepcional, o que faz vigorar uma espécie de burocracia torcionária, que consegue sempre construir as excepções que acabam por tornar nulas todas as funções de justiça, e, desse modo, são precisamente os miseráveis que triunfam e impõem as suas funções de ordem escatológica. "Fizeram-se leis, morais, estéticas, para vos impor o respeito pelas coisas frágeis”, dizia Louis Aragon, antes de desferir o seu golpe: “O que é frágil é para partir." Vemos como por toda a parte estamos imersos nos rigores processionais dessa liturgia pública dos sentimentos bondosos, dos valores que são esgrimidos virtuosamente nos discursos, mas que exprimem sempre uma certa dose de consternação diante do mundo, como se alguma coisa tivesse ido contra os planos. Enquanto isso é o ódio que parece levantar suspeitas, como se fosse uma excrescência arcaica, um resto tóxico da animalidade histórica, algo a evacuar por via higiénica, farmacológica ou policial. O ódio tornou-se o afecto interdito. Já não apenas um vício, mas uma espécie de crime atmosférico, e, desse mesmo modo, tudo deve ser moderado, reciclado, transformado em “desconforto”, “mal-estar”, “polarização”. Contudo, por detrás desta moral desinfectada, o ressentimento alastra por toda a parte, tantas vezes acicatado pelas zonas onde a regulação dinamiza um quotidiano em que vamos à procura uns dos outros nessa Cybéria, a fossa da internet 2.0, contaminada pela estimulação nevrótica das burocracias quando ...
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    3 hrs and 57 mins
  • Exorcisar o medo, escapar à tragédia. Uma conversa com Lourença Baldaque
    May 9 2026
    De toda a parte nos chegam avisos quanto a uma crise de autores teatrais, ou do conto, do romance, géneros que déramos como adquiridos, elementos constantes de uma plena função cultural, mas se se perdeu o entusiasmo das formas, aquela audácia com que se partia da realidade como de um mote para depois se tratar certos temas com um cuidado obstinado em animar de um sopro vital algo que pode, sem ele, tornar-se débil, apenas arrastando uma convenção oficial e cansada, há alturas em que tudo o que resta são pequenos salteadores da tradição, que a única coisa que lhe trazem é aquele gesto insolente, cabriolante, blasfemo, trabalhando verdades cada vez mais somíticas, tão parciais que acabam por só dispor de turvos factos e figuras que se desfazem em pó mal as examinamos de perto. Agustina notava que em certas alturas tendem a proliferar as melancolias dos pequenos talentos, sendo que estas chegam a assemelhar-se a infâmias calculadas. Adivinhou há três décadas que aquilo que nos esperava era um crescendo da ganância e uma cultura pedante que se imitaria para não ter que se inventar a si mesma. Não estamos já na companhia desses perdulários encantadores, mas dos associais das superestruturas, e não há já aquela capacidade de se defenderem do mundo alimentando-se da canção perdida que é o passado. No máximo temos nalguns a erudição malabarista, uma instrução que fede as mais das vezes a desembaraçados preconceitos, a banalidade aristocratizada do que passa por sabedoria, mas nada daquela inteligência convulsa, monstruosa, como essa criatura estupenda que se fixou entre nós, e que, entre só umas poucas mais, gozavam desse prestígio dos que punham na boca de cada um dos que com elas se cruzavam as únicas palavras que alguma vez pronunciaram. Impor-se com toda a relevância é um talento assombroso, mas hoje, tenham mais ou menos recursos, é difícil reconhecer nesses frágeis actores, que representam numa teatralidade tosca e excessiva o tal privilégio dos que movem o poder da criação, uma verdadeira intensidade. Não vemos que, nas coisas de que se ocupam com essa luz repartida e triste, consiga nascer seja o que for. Até as mentiras são cada vez mais inábeis… “Não mentem como dantes, não há qualquer contrato de persuasão, de conquista, na mentira”, diz-nos Agustina. “Hoje mente-se por manifesta insolência, quer-se dizer apenas ‘vê que a tua opinião me é indiferente e o que podes pensar não me causa nenhuma perturbação’. Eu vi diante dos meus olhos essa mentira desesperada e fútil”… Surgia, assim, uma geração que mente friamente, assim como se avilta friamente, e nisso escoa todo o seu drama. Não quer contratos com a sabedoria e com a experiência, e depois só resta uma espécie de leviandade carismática. Se em tempos esta escritora podia notar que “a alma de um homem é feita de muitas tentativas doutras almas”, hoje parece até um excesso romântico servir-se desses termos, quando o que prevalece é “o canibalismo moral”, a sede irreprimível de possuir súbditos, seguidores, de subjugar a vontade dos demais, sendo certo que, “quanto mais débil é uma sociedade, mais activa parece ser”, e damos por uns seres que não conseguem seguir nenhum argumento, nenhuma intriga arrojada, nada senão um rastilho boateiro, ficando-se longe daquela indiscrição da inteligência, ficando por dizer o que antes o nevoeiro consertava, esse pigmento de alma que nos era introduzido e que não era nem mero sentimento nem outra coisa que pudesse facilmente ser descrita, mas aquilo a que Agustina chamou “um sabor hamletiano que os portugueses regelam na pele, como se um povo inteiro nele se contivesse, na clausura da sua hereditariedade na fermentação do destino”. Podem até ser exageros de quem sempre nos foi dizendo que não lutava por pessoas ou coisas, mas por sínteses, e que vinha para o romance como para um piano velho, deixando a meninice dedilhar e cantar, com aquele gozo que a música desperta nas feras. Depois dessas ousadias que mais temos senão a tal febre de fatalismo que tomou conta de tudo?, a azeda turbulência e os motivos a que cada um se agarra entre enganos e tristezas remoídas, para de si mesmas transmitirem uma impressão forte, cercadas dos milhares de pessoas manejadas pela publicidade, pela nevrose colectiva de corresponder ao século, no que este tem de programa alienatório. Assim, “tudo são prorrogações e leve maceração de consciências", e, independentemente da forma, não se dá por um escrever e pensar com aquela audácia vingativa. “O que devia ser alado precipita-se no chão sujo dum palco; o que devia ser narrativa poética faz-se uma força antiquada da qual se evade sem pena a nossa imaginação. O que devia surpreender aborrece; o que é fruto de glória parece raquítica pretensão.” Deste modo vemos o processo cultural abster-se de um verdadeiro programa, de tudo aquilo que ...
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    4 hrs and 58 mins
  • Poeta: profissão liberal. Uma conversa com João Vasco Rodrigues e Nuno dos Santos Sousa
    May 2 2026
    A natureza não dá satisfações. À sua semelhança, também a poesia faz o que precisa fazer, e ninguém deve esperar que se enrede em justificações. Por outro lado, a crítica é uma arte de se mostrar audaz nos motivos que articula, como um criminoso, que fosse dispensado de cumprir qualquer tipo de pena, considerando-se que as motivações eram de tal forma eloquentes que até esse sabujo do homem médio, no seu papel, reconhece que não teria feito outra coisa, se ao menos estivesse dotado de alguma força de carácter e de coragem. Mas, por estes dias, ninguém admite como qualquer proeza significativa deve estar animada de um ímpeto e intenção criminosos, de uma paixão capaz de arrastar com ela e revirar todos os pressupostos, como se a moral se aliviasse da regularidade dos antecedentes para dar origem a uma fronteira e uma via por dentro do impensável, pelo menos até ali. Mas se pensarmos na cultura, aquela de que dispomos ao nosso redor, os exemplos mais propalados, nenhum nos adianta de nada. E o que nos servem os jornais, além dessas estatísticas sanitárias, pois se entre toda aquela jactância há muito não damos por uma ganância da realidade, as estrondosas expectativas que admitem efeitos perversos, bruscos, a vantagem de uma fantasia desordeira, e nem ao menos a sóbria e vesperal magia hebdomadária? O próprio amanhã tornou-se-nos inalcançável. Sim, porque mesmo nas condições de miséria moral actuais, todos se põem a negociar um mínimo. “Sim, porque ainda estamos no crepúsculo moribundo do amanhã, ainda podemos vislumbrar a ideia do futuro”, assinala J.G. Ballard. “Mas os meus filhos, ou os adolescentes de hoje, não estão interessados no futuro. Todas as possibilidades das suas vidas estão contidas dentro de um conjunto diferente de perspectivas, uma vida interior. Se olharmos para os últimos dez anos, podemos ver um contínuo recuo para o interior. Eu cunhei a expressão 'espaço interior' há cerca de dez anos e, geralmente, as previsões dos escritores de ficção científica provam-se erradas com 100 por cento de consistência, mas neste caso eu estava certamente certo: o que se vê é a morte do espaço exterior, o fracasso da aterragem na lua em excitar a imaginação de alguém a um nível real, e a descoberta do espaço interior em termos de sexo, drogas, meditação, misticismo. Basta olhar para a carreira dos Beatles e vê-se este recuo do exterior por etapas constantes, através das drogas, depois da meditação, para um envolvimento mais ou menos completo com os seus próprios corpos. Lennon e Yoko parecem estar a redescobrir a existência táctil, a realidade orgânica dos seus próprios abraços, e isso é muito bonito, eu acho.” Afinal, também esta leitura e previsão acabou por envelhecer mal, azedou, foi para lá do ponto. O interior tornou-se uma espécie de fuga, um álibi, um furo por onde toda a realidade vai escoando. Acabamos por ser levados a reconhecer que não há fundo para a capacidade de cada um, pelas suas razões infindáveis, pela economia das suas forças e por gestão de riscos, tirar o corpo da situação, todos tiram o corpo, e, no final, a realidade vê-se inteiramente abandonada por esta espécie. Aquele cabrão do Pasolini é que se mostrou mais presciente do que todos eles, por nunca se ter fixado em géneros desses que se especializam, e topou-nos bem os vícios, este modo de viver às arrecuas: "Encontramos assim um momento imponderável da cultura, um vazio cultural, povoado por escritores, cada um dos quais mais não faz que seguir a história particular, como numa ilha linguística ou numa área conservadora. Não se trata da crise habitual, mas de um facto totalmente novo, que evidentemente se repercute nas estruturas da sociedade." Talvez devêssemos esquecer por uns anos a longa tradição, fundar um período de intervalo, não regar os vasos, deixar toda essa vegetação que nos cobre o juízo definhar, não agir de acordo com os pressupostos, atacar as convenções, assumir o lado deficiente, ficar reduzido aos modos mais directos, aos elementos de ligação, aos contactos em que elegemos este ou aquele, e não uma suposta audiência, não alimentando a conveniência dos públicos enfartados da arte e de todos os seus produtos. Poderíamos ficar-nos pelos gestos tão fáceis de serem omitidos, dos quais muitas vezes só resta um carimbo, um selo, um minúsculo sinal de sentido tão limitado. Poderíamos voltar às correspondências que exigem algum grau de cumplicidade, os postais, as missivas que tinham um destinatário mais ou menos seguro, remontar os rastros “desses escritos desajeitados em que, no fundo, não se diz outra coisa senão que se continua vivo e que esperamos voltar a ver‑nos em breve”, aventa Georges Perec… “parece-me que emerge algo que constitui o próprio tecido da nossa existência no que ela tem de mais quotidiano e próximo: uma história esquecida, tão pouco ...
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    4 hrs and 33 mins
  • A inteligência de ficar para último. Outra conversa com Patrícia Câmara
    Apr 24 2026
    Exaustos de seres virados do avesso, sem interior, protagonistas incapazes de se despirem no escuro, trabalhando essa luz desesperada que vai de escândalo em escândalo, tínhamo-nos procurado retirar entre aquilo que nos restava, gestos roubados dos longos filmes, como os víramos em miúdos, a clareza que nos diz que a violência é como a poesia, pois não se corrige, antes aceita o desastre, capaz de ir até ao fim. Andávamos à procura disso a que antes chamavam realidade, e que parecia fixar a fronteira para o que é exterior e não se deixa comover facilmente. Mas o mais difícil de suportar era a companhia de uma gente que participava por meio de charadas inconsequentes e de ausências cada vez mais prolongadas. Éramos à vez as personagens castigadas uns dos outros, amolecidas ou rudes, um pouco ridículas, irritantes, a duas dimensões, consoante a perspectiva, respirando um ar demasiado artificial, numas macaqueações patéticas, sempre um tanto presunçosos, estéreis, vagamente cultos, empertigados, meio delirantes, e tão cansativos, parecia que faltava aquela genialidade generosa de quem é capaz de escutar dos outros o que não traz já em si, previsto, devastado, alguém que desse as graças a deus nenhum senão esse que nos serve algo além da frivolidade, um abandono propício. Nesse ambiente, como era de esperar, triunfavam o género de narradores medianos, voluntariosos, que nos vinham com as variações degradadas do que em tempos nos causara um espanto geral. Com essa mediania voluntariosa, diluíam tudo, até perdermos o sabor daquilo que tínhamos vivido. Só a experiência poderia ensinar àquele que nos habituávamos a perder, abdicando dele a favor de fantasias miseráveis, um movimento decisivo na imensa matéria anónima incapaz de remediar toda a desordem que já não responde por nenhum plano. Estávamos sufocados ao ponto de não sabermos o que restara depois de destruirmos os nossos hábitos (e em nome do quê?), até aqueles simples cuidados de tradução, de decifração, alguns costumes de inteligência, que justificam o empenho em não perder inteiramente o contacto com a maldosa existência dos adultos. Basta pensar no breve ritual diário em que tantos homens com uma posição a defender fazem o nó da gravata, muitas vezes ao espelho, ensaiando a expressão com que se recomendam ao mundo. Além de uma possibilidade de introspecção, com aqueles gestos parecem dar-se a possibilidade de reconhecer esse módico de risco e sacrifício, um sinal que os aparenta aos enforcados, ou o vestígio de uma trela que se ostenta entre o pescoço e a cintura, como se toda a ambição os fizesse incorrer nessa espécie de redil, nesse sufoco comum de quem aceita todos esses rigores, obrigando-se a flutuar num mar de prescrições, de códigos e de maquinações religiosas, se pensarmos como cada um rezava intimamente ao deus das vinganças, a um desejo de uma ordem ainda mais sórdida, da qual pudéssemos sair a ganhar. Parecia que todo o talento se havia concentrado de forma obsessiva e mesquinha, e, desse modo, tantos passavam o seu tempo a inventar subdivisões, escalões nos quais uns e outros pudessem subir e descer. Tínhamo-nos imposto um jogo inextricável de distâncias sociais em que toda a gente se introduzia e se reconhecia com uma destreza maravilhosa, degraus hierárquicos, competências infinitamente cruéis, rituais absorventes, que dissipavam toda a nossa capacidade de suspensão, de nos destacarmos face a nós mesmos e àquela trama. Mas uma vez por outra, alargando-se num gesto até ele perder qualquer propósito imediato, havia alguns que se conseguiam lembrar daquela ambição de nos tornarmos anacrónicos, sermos como que desviados por acasos, e víamo-nos a inscrever frases tão soltas, nas quais nada era prescrito, nada parecia proibido, nem a modéstia ou o deboche. Perante a ausência de deuses e de anjos, de categorias menos quantificáveis, achávamo-nos de súbito tão pobres, despojados dos símbolos da piedade e das leis, dos catecismos, dos cultos, das palavras de ordem. Tinha sido para isso que havíamos começado a inscrever aqueles signos, sinais de uma pobreza que ansiava por se livrar do excesso de palavras, recolhendo a cada momento só aquelas que pareciam ter uma capacidade de suspender, não presumir mais nada. As mesas podiam não estar dispostas ao mesmo tempo num mesmo espaço, mas criavam um ambiente, uma zona intermédia, onde as máquinas de escrever iam inscrevendo sem descanso esses sinais negros, com a existência daquelas pessoas a consistir num esforço de combiná-los, desfazê-los, recombiná-los, tentando resgatar algo, uma experiência, fazer valer a sua teimosia, sendo raros aqueles que podiam desgastar-se e entorpecer as suas ânsias, dando-se liberdade para registar essas necessidades estranhas à sua vontade, aos seus desejos, tudo aquilo que nos outros chega a parecer calamitoso, a forma como nos assaltam com as ...
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    2 hrs and 56 mins